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A imprensa e o tempo

Uma viagem pelas páginas dos jornais de Foz do Iguaçu. Por Aluízio Palmar, jornalista em Foz do Iguaçu, cofundador do jornal Nosso Tempo e editor do site Documentos Revelados.

Por Aluízio Palmar

Vasculhar jornais antigos é um extraordinário mergulho no passado. A gente viaja pelas páginas, acompanhando as mudanças sociais e culturais por meio das notícias.
É isso que acontece ao folhear os jornais que fazem parte do acervo do Museu da Imprensa (MI) de Foz do Iguaçu.

O MI é um relicário no qual pesquisadores vão encontrar momentos da história de Foz do Iguaçu, registrados nas páginas dos periódicos que circularam entre os anos de 1953 e 2019.
Na viagem pela linha do tempo, o leitor vai deparar-se com eventos do cotidiano, a consciência da época e a vida social e política.

Até um anúncio pode ser uma rica fonte que leva ao conhecimento do dia a dia da cidade, como o anúncio de um ponto de táxi na Avenida Brasil, publicado na edição número 11 do jornal O Trabalhador, de 1956. Nele, Silvério Smahl oferece passeios em seus dois jipes às Cataratas do Iguaçu e viagem ao Paraguai.

Na época, a Ponte da Amizade ainda não estava construída, Foz do Iguaçu possuía em torno de 17 mil habitantes, e as notícias mais relevantes eram os conflitos no campo.

A cidade pujante, em transformação e com 33 mil habitantes, começou a ser expressa e impressa nas páginas dos periódicos das décadas de 1950 e 1970, como A Notícia, de João Lobato Machado, Acelino de Castro e Inácio Sotto Maior, e no Jornal de Foz do Iguaçu, de Almir Nunes.

São as notícias sobre a construção da ponte ligando o Brasil ao Paraguai, o asfaltamento da Avenida Brasil, a construção do Colégio Bartolomeu Mitre, os bailes de debutantes e a eleição de Osires Santos, na época o prefeito mais jovem do Brasil.

O ano de 1968 foi marcado pela inclusão de Foz do Iguaçu na lei que criou as chamadas áreas de segurança nacional, a qual perdurou por 14 anos.

A década de 1970 foi o período marcado pela potencialização de Foz do Iguaçu como destino turístico, e isso pode ser notado pesquisando nos periódicos Notícia, o Jornal de Foz do Iguaçu e o Mini Informativo, que era distribuído gratuitamente na portaria do Cine Star, localizado na Avenida Brasil.

Aliás, o Mini Informativo inaugurou a fase da impressão em offset em Foz Iguaçu. Os outros jornais eram impressos no sistema de tipografia, e as imagens, reproduzidas por meio do clichê. Dona Ignes Sanches de Christo era a proprietária da gráfica e editora, e seus filhos, Joia, Cecília e Pedro, ajudavam na administração.

O noticiário da imprensa local cobrindo o turismo se encontra nas matérias sobre visitas de autoridades, recepções em hotéis e melhorias na área de visitação das Cataratas.

Mas, de vez em quando, a calmaria era interrompida naqueles anos bicudos. O jornalismo pisava em ovos, e a crítica não era tolerada pelo regime militar. É o caso da publicação, pelo Jornal de Foz, de matéria sobre licitação duvidosa para concessão de exploração da área de visitação das Cataratas. A publicação resultou em aborrecimentos para o jornalista Almir Machado Nunes.

Em 1974, o jornalista Waldomiro de Deus Pereira se estabeleceu em Foz do Iguaçu, atraído pelo boom causado pela construção da hidrelétrica de Itaipu, e decidiu criar um jornal, tamanho standard, dando a ele o nome de Binacional, em homenagem à obra gigantesca.
O Binacional não sobreviveu à primeira edição, que circulou em 18 de setembro de 1974. Os exemplares foram apreendidos pela Polícia Federal, e Waldomiro foi preso e levou uma “prensa” no então 1.º Batalhão de Fronteiras.

O motivo da apreensão dos exemplares e prisão do jornalista foi, segundo o inquérito, uma matéria sobre a situação em que se encontravam os agricultores que tiveram suas terras desapropriadas na localidade de Santo Alberto, que ficava localizada no entorno do Parque Nacional do Iguaçu. Com a ampliação das dimensões do parque, esses agricultores foram desalojados de suas terras.

O final da década de 1970 foi marcado pelo surgimento de uma Foz do Iguaçu em plena oxigenação. Era uma transformação em todos os sentidos: expansão urbana, mudança de costumes e agitação política. O tecido social em composição dava uma nova cara para a cidade, marcada pela explosão populacional.

Atraídas pela construção da hidrelétrica de Itaipu, diariamente chegavam à rodoviária, então localizada na Avenida Brasil, legiões de migrantes, a maioria vinda do campo. A mecanização e a concentração da propriedade da terra decretavam o fim dos boias-frias e parceiros.
Surgiram então os loteamentos e, no entorno deles, as favelas. A cidade era um caos generalizado. Loteamentos de chão batido, esgoto a céu aberto e mobilização urbana precária.

Em 1980, o IBGE registrava que Foz do Iguaçu alcançava 130 mil habitantes, um aumento de 400% em relação ao censo de dez anos antes.

Foi nesse contexto que chegou então o jornal Hoje Foz, com linha editorial inspirada pelo jornalista Sefrin Filho. Pesquisando as páginas do jornal, encontra-se uma cidade turbulenta, caótica e em transformação.

Chama atenção a densidade das editorias de polícia, social, política e cidade. Foz do Iguaçu já não era mais a mesma, e as páginas dos impressos refletiam essas mudanças.

Com o fim do Hoje Foz, em meados de 1979, surgiu, em dezembro, o jornal Nosso Tempo, com uma linha editorial engajada nas demandas da expansão urbana e nas lutas políticas e sociais, que fervilhavam nos anos da redemocratização do país. O Nosso Tempo durou 15 anos e marcou época pela sua insurgência social e política, bem como pela sua irreverência diante do conservadorismo e preconceitos.

Como consequência de suas pautas, que enfrentavam o establishment, o jornal foi perseguido, e seus editores, indiciados pela Lei de Segurança Nacional.

Naqueles anos em que a ditadura militar agonizava, um dos três editores do Nosso Tempo, Juvêncio Mazzarollo, foi preso e é considerado o último preso político do período de exceção do Estado de Direito.

Era o fim de uma época e também o fim da imprensa alternativa. Começava em Foz do Iguaçu um novo período de transformação.

Aluízio Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu, cofundador do jornal Nosso Tempo e editor do site Documentos Revelados.

Museu da Imprensa - Foz

O Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu é uma realização da Guatá – Cultura em Movimento, associação civil sem fins lucrativos fundada em 2004, com sede em Foz do Iguaçu.

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